Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho
Enterrados no Jardim
Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho à conversa, leve ou mais pesarosamente, fundidos na bruma da época, dançando com fantasmas e aparições no nevoeiro sem fim que nos cerca, tentando caçar essas ideias brilhantes que cintilam no escuro, ou descobrir a origem do odor a cadáver adiado, aquela tensão que subtilmente conduz ao silêncio, a censura que persiste neste ambiente que, afinal, continua a sua experiência para instilar em nós o medo puro. Vamos desenterrar, perfumar e puxar para o baile os nossos amigos enterrados no jardim, e deixar as covas abertas para empurrar lá para dentro aqueles que...
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Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho
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Jul 11, 2026
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Episodes
Emissários do êxodo ou da extinção. Uma conversa com Rui Lage 30.11.2023 3:29:26
O mundo (este ou outro qualquer) é o conjunto de imagens-tendências projectadas a uma mesma velocidade, essa a que o olho humano se pode adaptar, captando-a, do mesmo modo que um receptor de rádio conectado a uma determinada frequência capta modulações que constroem sentido nessa banda sonora. Mas se hoje tudo começa a parecer-nos excessivo, se há ruído demais na frequência, se as imagens se atrop...
Os aristocratas do fim do mundo. Uma conversa com Luís Gomes 23.11.2023 3:31:09
Traficantes de sinais que persistem entre a escória de cada época, cabe aos livreiros um papel fundamental nas operações de resgate e nesse cultivo de uma esperança que, ao contrário do que se pensa, não nasce de uma visão tranquilizadora e optimista, mas de uma laceração da existência vivida e confrontada depois de se lhe arrancar todos os véus. É precisamente isto o que gera uma irreprimível nec...
Vampiros, zombies, vírus e outras variações sobre o desastre desta nossa grande época 13.11.2023 1:43:14
Este é o primeiro episódio sem a Joana, que não quis mais andar por este jardim cativo de uma feira bruta com menos diversões que tormentos. Bateu com a porta, por isto e por aquilo. Fica-nos esta necessidade de remorso que não altera nada, e se o mais indicado talvez fosse cumprir um certo luto, para quê vir agora observar protocolos quando até aqui o impudor foi o único heroísmo a que nos entreg...
Demitam-se também os portugueses. Conversa com Jacinto Godinho 07.11.2023 2:39:54
Agora que todos os raciocínios são trincheiras, que um homem que se dê ao trabalho de pensar por si ver-se-á empurrado para as catacumbas de si mesmo, sendo condenado ao isolamento, agora que a quantidade impede qualquer revolta contra ela, quem se esforça por dizer palavras verdadeiras não consegue evitar soar ridículo. Ainda andamos de volta dos jornais, guiados pelos avisos de Karl Kraus contra...
Três tristes tigres de roda do prato de espinhas do jornalismo. Conversa com Nuno Ramos de Almeida 30.10.2023 3:35:51
Entre os de papo cheio e os manga-de-alpaca que tornam os corredores ainda mais longos e bafientos neste regime miserando, vamos buscando quartos com os estores em baixo, onde "conferenciamos em surdina com as nossas almas, isto é, as peças dos equipamentos espatifados que os nossos inimigos nos deixaram" (Sean Bonney). Quando se vai em campanha, o jornalismo é a actividade dos batedores, dos que...
Um país em liberdade condicional. Entrevista a Carlos Matos Gomes 19.10.2023 3:09:19
Nove séculos depois, com tanto desaire, tantos tombos e ilusões a naufragar neste sangue, está difícil vir tirar do prego as três sílabas que em tempos cunhámos em cobre e nos foram devolvidas em plástico, esta vaga pertença sobre a qual vemos acumularem-se juros impossíveis de saldar na loja de penhores inglesa onde a deixámos, temporariamente apenas, só enquanto nos curávamos de outra carraspana...
Do anarquismo ao pensamento mágico. Uma conversa com Diogo Duarte 12.10.2023 3:13:01
Mesmo entre os que ainda pegam num jornal para o ler, em vez de logo o enrolarem para enxotar alguma mosca, há gente que só lê as páginas de desporto, outros só lêem as páginas de sucessos, outros dedicam-se aos horóscopos, alguns preferem as palavras cruzadas, e há também aqueles que vão direitinhos aos necrológios. Apesar de tudo, há ainda muita gente que não sabe ler, e, entre os que dizem que...
Zero em Comportamento. Uma conversa com Jorge Roque 02.10.2023 3:38:15
Em breve a dor será tida como uma substância ilícita, devendo ser erradicada em regime preventivo com recurso a uma panóplia de fármacos, desde logo estabilizadores de humor. E quem a ela responder em público será alvo de punição. Não há direito a incomodar os que estão a gozar os benefícios de uma existência radiante, e não merecem ser confrontados com o desmazelo dos que se recusam a cumprir com...
Rasgar um caminho à bordoada. Uma conversa com Eugénio Lisboa 26.09.2023 3:27:20
Eça de Queiroz dizia que na sonolência enfastiada em que vivemos, num país onde a vitalidade humana apenas se conserva num egoísmo feroz e numa devoção automática, não nos é dado aspirar a uma existência propriamente, mas tão-só a alguma forma de expiação. Agora os abutres de serviço dizem-se muito empenhados em honrá-lo, mas vão-se esquecendo como, no ambiente de decadência endurecida que é o nos...
Valsas entre sentenças de cinza e razões de vento. Uma conversa com José Miguel Gervásio 03.09.2023 3:31:59
Com o transplante da existência para os domínios virtuais, o mais difícil é fazê-los acreditar na realidade. Vivem asfixiados em poços cegos, consumidores de juízos alheios, imersos num zumbido que se torna o predador engendrado pela espécie contra si mesma. São essas ficções infindáveis nas quais em vão procuramos qualquer coisa real para dar ao dente. Apetece citar Ernesto Sabato no seu Relatóri...
Andar às lostras num ringue de mel. Outra conversa com o Changuito 15.08.2023 3:37:58
Antes de irmos de férias (ou melhor, antes de vos darmos um período de tréguas), no nosso vigésimo episódio regressamos àquela que é em grande medida a casa da partida, casa de ecos pingados numa música de câmara ardente, casa cheia das marcas de velhos inquilinos, dos que não morrem sem dar luta, e que deixam para trás algum prego só deles, num canto uma ruinazinha que não há maneira de sabermos...
Laboratório de extinção. Uma conversa com Manuel Bivar 07.08.2023 3:29:44
Nos jornais diários e nos espaços de comentário onde todos os dias a realidade desaparece, enquanto o prestidigitador anda às voltas com ar atarefado a cozinhar uma sopa da pedra na cartola, lá vem a telenovela da anestesia com as catástrofes já habituais: juros da dívida em crescimento, novo corte de salários e pensões, aumento do desemprego, e o administrador de um hospital público que faz conta...
Nunca te foram ao cu. Uma conversa com Miguel Filipe Mochila 31.07.2023 3:38:52
A vida não é aqui e só raramente nos visita, sendo este mais outro cenário que serve à encenação desses comoventes desenlaces de um mundo que vive de falsas esperanças, ficções hipócritas, dessas faustosas imposturas que, "com uma perversidade certeira, permitem ao sistema de poder do nosso tempo tirar a potência e autoridade a todas as formas que o desafiam, contestam ou lhe criam alternativas re...
Bruxas, putas, cabras heréticas. Uma conversa com Luís Filipe Parrado 22.07.2023 3:12:55
Dado o grau de inconsciência, a vida desinteressou-se de nós, e há uma nostalgia do túmulo que se sobrepôs aos nossos desejos. Sendo a realidade aquilo que é, sonha-se com vingança e, artisticamente, talvez esteja na altura de as musas nos darem cabo do canastro. Enquanto isso, aí fora tudo engendra bestas apressadas, industriosos monstros, ao passo que os mundos entrevistos e murmurados na cama e...
O Ânus Solar e o Sol Negro na edição portuguesa. Uma conversa com Frederico Neves Parreira 17.07.2023 2:57:13
Andamos a chafurdar em narrativas simplistas, enredos que servem de funil para a moral engarrafada, e há por aí juízos enlatados para todas as ocasiões, por outro lado, a literatura em geral, e o romance em particular, depois deste naufrágio miserável, sobrevive por aí em pequenas ilhas, enquanto no continente vão propondo à circulação toda uma linha de mediocridades híbridas que se alimentam dos...
Ir colher laranjas ao pomar. Conversa com Alexandre Pomar 10.07.2023 2:45:51
É o que dá andar nisto como quem sai à caça de quimeras: pedimos Quixote, sai-nos um Sancho, vamos aos gambozinos, damos com osgas domésticas, tínhamos visto por aí um crítico desaustinado e afinal damos com outro reitor da Universidade do eu-e-as-coisas-ao-meu-redor. Às vezes é assim. Filho de Júlio Pomar, teve as chaves da chafarica e fez um percurso privilegiadíssimo no jornalismo, impondo-se s...
À Espera do Ultimato dos Educadores. Conversa com Maria do Carmo Vieira 03.07.2023 2:16:35
Depois de ser dispensada do programa das aulas de português, estava na altura de trazermos de volta essa figura tão malquista como crucial d’Os Lusíadas, esse grande dissidente face aos desvarios de uma certa nobreza que continuamente nos leva a embarcarmos como ratos na nau catrineta das suas fantasias. Numa época de apoucamento da língua, de cedência a toda a ordem de facilitismos, manigâncias e...
Aquele em que fomos ao fundo arrastando connosco meio mundo. Conversa com Luís Miguel Rainha 25.06.2023 2:58:23
Desta vez, e sendo o episódio 13, isto foi para a desgraça completa. Com uma boa zurrapa a afinar os instrumentos, saímos de submergível, e enfiámo-nos no mar arrastando literatos aos gritos pela mãezinha, a mandarem sms's e a baterem com as chaves e os anéis um morse muito aflito, com instruções sobre como preparar a edição póstuma do conteúdo das suas tantas gavetas. Fomos depressa ao fundo arra...
O legado que fica nas toalhas das mesas de cafés. Uma conversa com Vladimiro Nunes 21.06.2023 3:20:41
"Uma simples frase mais bela, um simples adjectivo mais acertado tem de atravessar imensas camadas de lama e esterco para enfim brilhar. As histórias da literatura só falam do brilho. Mas nunca da esterqueira donde emergiu. E é no esterco que sinto uma grande parte de mim", confessava Vergílio Ferreira no seu diário, e serve-nos isto como balanço quando há tanta resistência a que se fale dos aspec...
Génese do sindicato terrorista das letras. Uma conversa com Fernando Ramalho... 12.06.2023 3:02:16
Temos tido poucos capitães no nosso espaço literário, poucas oportunidades de nos vermos guiados para alto mar ou sequer alta noite em enormes navios de espelhos, esses onde o tempo se confunde de tal modo que nos oferece o delírio de verdadeiras delícias quiméricas, esses capitães cujo grito ou o silêncio nos inunda o sangue e os nervos de tal modo, de tal modo que através dele todos somos capitã...
Suíte e Fúria. Uma conversa com Rui Nunes 07.06.2023 2:49:26
A degradação também se faz de um infindável repertório de ecos, repetições que parecem vincar algo de decisivo, mas que, na verdade, vão corroendo, deslocando o sentido até este se tornar demasiado vago, inexpressivo. E, nisto, damos por nós em busca de uma voz que não proceda de um olhar emprestado, ou roubado. Como escreve Rui Nunes no seu mais recente livro ("Neve, Cão e Lava"), lêem-se "tantos...
”Um corpo sozinho é uma campa vertical”. Uma conversa com Vasco Gato 02.06.2023 2:39:20
Cheira a sangue a mancha de vinho na toalha, e deve ser sinal de que a inteligência volta enfim a encarnar, a ter gestos largos, expansivos, a ver e tocar as formas diariamente. Depois de três anos de suspensão e de uma certa necrose social, está na altura de falarmos sobre o que (nos) aconteceu. Tentamos recuperar o sentido da proporção e da razão ardente para falar daquilo que nos foi proibido,...
Beber uma coca-cola em casa do Manuel João Vieira 30.05.2023 58:35
Estar vivo hoje parece tão fácil. E talvez até fosse, não se desse o caso das coisas estarem cada vez mais estranhas, ou simplesmente estúpidas. Quando a vida parece apontada para o raio que a parta, são os degenerados e os delinquentes que assumem os comandos da nave. Manuel João Vieira brinca há décadas com essa hipótese dos imbecis tomarem conta e desta porra triste perder mais alguns parafusos...
Querelas, bulhas, porrada de meia-noite... Uma conversa com João Pedro George 18.05.2023 3:36:50
Queres ver que depois desta continuam a jurar a pés juntos que não há polémicas no meio literário português? Se calhar até têm razão, porque para haver estrilho, drama, seja o que for, antes de mais nada, era preciso que esses mesmos que nunca dão por nada dessem por si mesmos, tivessem algo que os fizesse viver que não fosse apenas algum esquema que lhes sustente a videirunha à portuguesa. No mei...
Para lá da actual guerra civil de egos, o que há? Conversa com Luhuna Carvalho 11.05.2023 2:36:12
Perante a vida desencantada, perante toda esta decadência generalizada da vida, que está na raiz da nossa desmoralização actual, todos apenas parecem buscar consolos ou formas de ajustar o cinismo para abrir espaço a ressalvas e excepções, quase sempre circunscritas ao espaço da vida mais íntima. Quanto ao mais, todos parecem ter feito as pazes com uma cultura que já em nada coincide com a vida, e...
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