Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho
Enterrados no Jardim
Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho à conversa, leve ou mais pesarosamente, fundidos na bruma da época, dançando com fantasmas e aparições no nevoeiro sem fim que nos cerca, tentando caçar essas ideias brilhantes que cintilam no escuro, ou descobrir a origem do odor a cadáver adiado, aquela tensão que subtilmente conduz ao silêncio, a censura que persiste neste ambiente que, afinal, continua a sua experiência para instilar em nós o medo puro. Vamos desenterrar, perfumar e puxar para o baile os nossos amigos enterrados no jardim, e deixar as covas abertas para empurrar lá para dentro aqueles que...
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Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho
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Jul 11, 2026
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Episodes
"Sperma retentum venenum est". Uma conversa com António de Castro Caeiro 13.06.2025 4:31:23
Por mais que goste de exibir a sua perpétua avidez, a glutonice deste tempo sacia-se depressa, e o ciclo repete-se sem margem para desvios. É um tempo avesso a grandes proclamações, ainda que esteja ansioso por distracções, catástrofes que o venham beliscar, mantendo-se desperto com recurso a uma teatralização que abusa do som e da fúria, e fazendo do quotidiano um tédio constante com vista sobre...
Alice no País das Finanças. Uma conversa com Ricardo Paes Mamede 05.06.2025 2:57:02
Não anda longe o momento da atomização absoluta, da conversão de cada um de nós em figuras que se diluem num espelho programado, numa miragem que nos absorve como Narcisos do curso de águas digitais. Há coisas que não se podem traduzir, nem espelhar entre mundos, sob o perigo obscuro de se produzir um reflexo subtilmente monstruoso e que pode bem contaminar ou assombrar o original. Mary Shelley di...
O futebol e outras civilizações ficcionais. Outra conversa com Carlos Maria Bobone 30.05.2025 3:33:12
Teria sido bom se em vez de cigarros e outros vícios ocasionais, tivéssemos aprendido um instrumento, desses que puxam por nós, tornam mais fértil a solidão, e nos levam por lugares perdidos à boleia do som, frequentando uma gente que prescindiu de se fazer interessante, de se explicar, coleccionar temas e opiniões, mas que prefere outro ângulo do mundo, outras frequências, promete o sangue a uma...
O real como transcendência. Uma conversa com Luís Bernardo 23.05.2025 4:00:38
Está difícil imaginar como vamos fazer os desertos engasgarem-se de novo com as marés. Parecemos estar reduzidos a uma política em migalhas, política apenas concebida como mecanismo de substituição do real por ficções, mesmo porque, como assinalava Enrique Lihn, "nada é suficientemente real para um fantasma", e são apenas fantasmas aquilo que produz este mundo sucessivamente diluído que nos é post...
Em nome dos bárbaros. Com o Changuito no centésimo episódio 16.05.2025 4:22:09
Já andamos nisto há cem episódios, a tentar desenhar essa periferia monstruosa em torno de uma cultura que se excede de tão recomendável, debitando exemplos, listas de autores e obras, “ideias flutuantes”, enaltecendo-se na sua acumulação esgotante, com esse enredo esfalfado em que as mesmas personagens inofensivas aperfeiçoam os gestos de mármore, com os seus conhecimentos fragmentados, desprovid...
Uma sinfonia de chumbo nos 100 anos do Pacheco. Em conversa com João Pedro George 07.05.2025 4:28:27
Para se ser um homem deste tempo ou até de outros, e variar, cumular, não basta estar vivo, como estamos todos, mais ou menos, tantos sem grande proveito, para si mesmos ou para a época, não basta isso, ainda é preciso ter ouvido, escutar a música que faz cada um, que fazemos todos, os que sabem arrancar notas ao seu instrumento, seja este qual for, ouvir como tudo isso depois se eleva, que sinfon...
Uma escatologia política: do mal à emancipação. Conversa com Tiago Mota Saraiva 02.05.2025 4:23:06
A um político nos nossos dias aquilo que deveríamos exigir antes de qualquer outra coisa é que tenha a disposição de acumular "um cadastro de prodígios", que o seu discurso se liberte do horizonte do provável, procurando formular uma profecia obscena e que passe pelo triunfo de uma voz maldita, de tal modo que aqueles que o oiçam se sintam já de certo modo culpados, capazes de vislumbrar essa real...
Pornografia, kidfluencing e iogurtes com pernas. Uma conversa com Maria João Faustino 24.04.2025 4:26:10
O que é decisivo transformar permanece quase sempre em segredo, leva o tempo necessário, não se apressa, mas, aos poucos, vai chegando à sua plenitude devastadora. Não leva tanto tempo como imaginam aqueles que preferem não pensar nisso, mas muitas vezes não chega a tempo de socorrer os que começam a sentir-se desesperados. Ainda assim há que aprender com essa espera, crescer com ela. Podemos ler...
Déspotas, caudilhos e ditadores de bairro. Uma conversa com alguns fantasmas 18.04.2025 3:35:56
Já só se pode contar com os brutos para levar isto ou aquilo por diante, seja o que for, uma vez que, pelos seus próprios modos, estão familiarizados com o estrago, e não os tolhe a falta de um nexo óbvio, estão habituados a pegar por onde der, e ajudam-nos a partir do momento em que nos assumimos também como monstros folhetinescos, desses que dão corda a uma intriga qualquer, até porque se nos ca...
O cheque-prenda das funerárias e outros saldos. Uma conversa com Vasco Santos 10.04.2025 3:39:42
O homem não se reproduz numa grande gargalhada, e é pena. Daria outro sentido às coisas, e seria já por si uma filosofia de impulso quando as coisas não parecem ser capazes de rastejar mais baixo. Já se sabe que os chefes de família em nada acreditam, mas que grande fé colocam no seu cinismo. A situação da nossa fragmentada e precária civilização é cada vez mais grave, lê-se em toda a parte. E as...
Misoginia, linchamentos e a economia do ressentimento. Outra conversa com Maria Lis 04.04.2025 4:17:38
“Quero conhecer a puta./ A puta da cidade. A única./ A fornecedora./ Na rua de Baixo/ Onde é proibido passar./ Onde o ar é vidro ardendo/ E labaredas torram a língua/ De quem disser: Eu quero/ A puta/ Quero a puta quero a puta.// Ela arreganha dentes largos/ De longe. Na mata do cabelo/ Se abre toda, chupante/ Boca de mina amanteigada/ Quente. A puta quente.// É preciso crescer/ esta noite inteira...
A grande guerra à realidade. Outra conversa com Rui Nunes 28.03.2025 3:57:05
Este tipo masturba-se à sombra de uma árvore de que não sabe o nome, é espiado também desde um ninho qualquer por pássaros sem uma espécie que pudesse distinguir das demais, tem diante de si uns quantos cadáveres, rostos familiares dos filmes, das revistas, corpos que a sua fantasia se entretém a compor e decompor, enquanto procura um ângulo que o satisfaça. Em tempos escrevia umas coisas, foi pub...
A vergonha tem de mudar de lado. Uma conversa com Patrícia Portela 21.03.2025 4:45:06
Não deveria haver coisa mais suja do que isso de pôr-se a escrever sem um fim claro, ir acerbilhando as frases de modo a gerar um grau qualquer de irrazoabilidade, uma relação suspeita, cujos esforços se tornam um motivo de perturbação à volta. “Começo a escrever. E quando o faço nada de bom se passa já no meu íntimo”, anota Santos Fernando. Na verdade, é essa a inflexão decisiva de uma escrita, q...
As mais novas cartas portuguesas. Uma conversa com Sara Araújo 14.03.2025 4:58:32
"A poesia é onde tudo acontece”, escreveu Alejandra Pizarnik. E adiantou que dizer “liberdade” e “verdade” em referência ao mundo em que vivemos (ou não vivemos) é dizer uma mentira. “Só não é mentira quando se atribui estas palavras à poesia: o lugar onde tudo é possível.” Mas há muito que deixou de ser assim entre nós. Por cá a poesia é o lugar onde nada acontece, e são realmente muito poucos aq...
Jornais, orquestras, tripulações e naufrágios. Uma conversa com João Sedas Nunes 07.03.2025 3:46:09
Uma boa redacção é um cruzamento entre um navio daqueles do século XVII e uma tremenda orquestra, um sítio que em si mesmo vai a caminho, e transporta um profundo tumulto, esperanças, fúrias, um convívio pouco vigiado, alentado por todo o género de substâncias, quimícas, imaginárias, o raio, é um sítio laborioso, grave, atarefado, às vezes absurdamente tenso, outros explodindo de ânimo, risos, e q...
O surrealismo e a astúcia popular. Uma conversa com B Fachada 28.02.2025 4:32:00
Muitos parecem deslumbrados com a época e a sua tolerância, o seu enredo caprichoso, a sua ânsia de tudo deglutir, de acolher todos os deserdados, todos esses que vão sendo empurrados para o amontoado, formando a grande pilha, nessa construção que ganha altura apenas para que tudo fique confinado à sombra que projecta. A imensa variedade de que as comunidades se compunham, as periferias com as sua...
Espantar os limites da visão. Uma conversa com Carlos Vidal 21.02.2025 3:09:34
Talvez o homem seja esse animal trágico condenado a gerar os predadores que acabarão por lhe dar caça e levá-lo a uma submissão permanente ou, até, à extinção. Mas antes de dar forma a uma razão exterior, fomo-nos desprotegendo, expandindo o elemento sacrificial e degradante dos mais fracos pelos mais fortes, até nos condicionarmos a uma existência em que cada homem é o seu próprio inimigo, deixan...
Mapa para não enlouquecer de vez. Uma conversa com Serena Cacchioli 15.02.2025 3:46:47
Um tipo passeia-se entre as ilhas e as estantes de uma livraria, abre os livros colocados em destaque, e nem a sensação tem de estar à janela, seguindo figuras em ponto pequeno lá em baixo, muito menos vultos que se deslocam noutra dimensão, antes parece que só vê cortinados. Há quem se delicie com os padrões, os bordados, como há quem prefira olhar para frutos num quadro, em vez de os ter numa ce...
Encontrar a nossa partitura física. Uma conversa com Cátia Terrinca 07.02.2025 2:35:29
Ainda que nos tenhamos tornado imensamente hábeis na hora de produzir diagnósticos da nossa época, aquilo que virá, vem e consegue sempre atingir-nos como um atropelo. O futuro surge sempre como um intruso, que abala as previsões, chega a escarnecer delas. Talvez isso funde o optimismo daqueles que vivem para o futuro como para uma vingança, mesmo que esta não possa ser encenada a seu favor. Pior...
Desamparados frente à noite. Uma conversa com Pedro Levi Bismarck 02.02.2025 4:21:15
Desta vez, subimos uns galhos para respirar outra coisa, para desoxidar a alma do imobilismo lisboeta, deram-nos margem para uma breve digressão, para ir saber a que distância ainda é possível estender a voz, desenterrar os ossos de alguns ecos, isto sendo certo que o exercício de um discurso crítico ou artístico só pode ter algum papel assim que se desenvencilhe de privilégios. Tende a ficar clar...
Associações de pastorícia cultural. Uma conversa com João Eça 24.01.2025 3:50:53
Que lindo cortejo de condenados este que nos é dado apreciar. Neste país todo ele em -inho, como já dizia o outro, também tínhamos de ter os nossos artistas, e as duas ou três agências de promoção, arranjos, prestígios e reputações forjadas do pé para a mão, montras, pódios, esse bando de alminhas condecoradas, sempre com toda a disponibilidade para ir, e depois todos esses aspirantes, como náufra...
Para acabar de vez com a boa-consciência do público. Uma conversa com Margarida David Cardoso 17.01.2025 3:41:43
Para 2025 não temos grandes planos, apenas a insistência, os gestos que exigem ser lidos na continuação de um tumulto, prosseguimos os esforços, os erros de que ainda somos capazes, com aquela liberdade de já tudo ter sido dito, estando tudo ainda por fazer. Sem nenhum compromisso com a inocência, usamos um relógio morto no pulso, e se o tempo se decompõe, como esse inodoro cadáver, o tique taque...
Sentir no ar outra coisa além do perfume de adeuses. Outra conversa com Nuno Ramos de Almeida 01.01.2025 3:40:10
É difícil saber como se atravessa o nada deste arco, essa linha invisível do ano novo. Não há uma porta, talvez só um buraco, de um lado e do outro: o mesmo. Olhamos em volta, e, nas ruas, por toda a parte, menos do que um fantasma, só uma bruma retardada. Desde há um tempo já não há começos, e, deste modo, apoiamo-nos em rituais desgastados, e em todas as nossas manifestações apenas se exprime um...
Luigi Mangione, um juiz selvagem em tempos de injustiça. Outra conversa com Luhuna Carvalho 27.12.2024 3:21:44
Não seria mau se, em vez de João e Maria, na lista dos nomes mais populares dados aos recém-nascidos surgissem nos próximos anos Greta e Luigi, em honra a essas figuras capazes de nos despertar para o escândalo do nosso modo de vida. Antes que nos seja possível reconhecer a necessidade do regresso da vingança como parte activa e meio de restituição do “princípio de coesão íntima do mundo” (Goethe)...
Da missa de galo à cabidela do costume. Uma conversa com Cristina Carvalho 24.12.2024 3:02:41
Àqueles a quem o Natal diz muito pouco ou mesmo nada, o avesso das expectativas, esse sentido que nasce de tanto se tocar o mundo de fora, de interpretar um elemento de desordem, um modo de alegria tão apropriada à realidade como uma traição, seria embaraçoso tentar falar dessa sensação absurda de paz de que gozámos alguns enquanto crianças, estando entregues à espera, a uma difusa ansiedade, enqu...
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