Marcella ☉☽ poesiaemgotas_podcast

Poesia Em Gotas

Arts PT ↓ 65 episoder

Marcella Saraceni é poeta, fotógrafa, redatora e entusiasta dos assuntos ligados a sexualidade, política e arte. Nasceu em uma família de pais homossexuais e desde nova percebeu que não cabia nas caixas sociais pré-moldadas. Para subverter a ordem e aprender a conviver com as perdas em sua vida, escreveu, encontrando na poesia uma fonte de força e coragem para expressar seu sentir. Na experimentação do corpo e das palavras, segue buscando novos caminhos e relações mais amorosas consigo e com o mundo.____link para compra de seu primeiro livro:https://editoraurutau.com/titulo/poesias-famintas

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Kategori

Arts

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23. jun 2025

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Episoder

Eutopia - Marcella Saraceni 06.08.2020

Eu queria, algum dia, habitar o espaço onde minhas memórias estão guardadas Eu queria entrar nesse lugar onde minhas experiências dançam juntas e pairam no ar Queria acessar a imensa biblioteca dos livro que li Olhar a tela onde passa o compilado de tudo que vi Eu queria enterrar meus pés na mistura dos solos em que já pisei Mergulhar no oceano das águas que penetrei E nos olhares em que me afogue...

Fagulha- Ana Cristina César 02.08.2020

Abri curiosa o céu. Assim, afastando de leve as cortinas. Eu queria entrar, coração ante coração, inteiriça ou pelo menos mover-me um pouco, com aquela parcimônia que caracterizava as agitações me chamando Eu queria até mesmo saber ver, e num movimento redondo como as ondas que me circundavam, invisíveis, abraçar com as retinas cada pedacinho de matéria viva. Eu queria (só) perceber o invislumbráv...

Fêmea fênix - Conceição Evaristo 04.07.2020

Navego-me eu–mulher e não temo, sei da falsa maciez das águas e quando o receio me busca, não temo o medo, sei que posso me deslizar nas pedras e me sair ilesa, com o corpo marcado pelo olor da lama. Abraso-me eu-mulher e não temo, sei do inebriante calor da queima e quando o temor me visita, não temo o receio, sei que posso me lançar ao fogo e da fogueira me sair inunda, com o corpo ameigado pelo...

O Operário em construção - Vinícius de Moraes 16.06.2020

Poema escrito em 1959 retratando o processo de construção da consciência social do trabalhador.

O que se odeia no Índio - Reynaldo Jardim 25.05.2020

O que se odeia no índio não é apenas o ocupado espaço. O que se odeia no índio é o puro animal que nele habita, é a sua cor em bronze arquitetada. A precisão com que a flecha voa e abate a caça; o gesto largo com que abraça o rio; o gosto de afagar as penas e tecer o cocar; O que se odeia no índio é o andar sem ruído; a presteza segura de cada movimento; a eugenia nítida do corpo erguido contra a...

Elegia número 11 - Mário Quintana 18.05.2020

Não, não é uma série de pontos de exclamação - é uma avenida de álamos... E o que, e para quem, clamariam então?! Deserta está a cidade. Todas as avenidas, todas as ruas, todas as estradas, atônitas se perguntam se vêm ou se vão... Em nada lhes poderiam servir esses postes de quilometragem: estão apenas desenhados, como num mapa. Ah, se houvesse uns passos, ainda que fossem solitários... Se houves...

O menino que carregava água na peneira - Manoel de Barros 06.05.2020

Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água O mesmo que criar peixes no bolso. O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos. A m...

Ode ao instante - Marcella Saraceni / composição musical: Alan Tartari 03.05.2020

Se te olho no fundo da retina É porque estou aqui Em alma, corpo, espírito e vontade Entrego minha presença a tua Nua, e vazia de expectativas Não precisas permanecer teu olhar no meu se não sentir Eu sei que ele as vezes é forte demais Mas não me peça pra ser menos Não me diga que poderia ser mais Não compare nossos corpos Não saia correndo Ou morra de medo do agora Tudo é só esse momento É leve,...

Se eu fosse eu - Clarice Lispector 16.04.2020

Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR. E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, co...

O Poema do Semelhante - Elisa Lucinda 14.04.2020

O Deus da parecença que nos costura em igualdade que nos papel-carboniza em sentimento que nos pluraliza que nos banaliza por baixo e por dentro, foi este Deus que deu destino aos meus versos, Foi Ele quem arrancou deles a roupa de indivíduo e deu-lhes outra de indivíduo ainda maior, embora mais justa. Me assusta e acalma ser portadora de várias almas de um só som comum eco ser reverberante espelh...

Madrugada Camponesa - Thiago de Mello 12.04.2020

Madrugada camponesa faz escuro ainda no chão mas é preciso plantar. A noite já foi mais noite, a manhã já vai chegar. Não vale mais a canção feita de medo e arremedo para enganar a solidão. Agora vale a verdade cantada simples e sempre, agora vale a alegria que se constrói dia a dia feita de canto e de pão. Breve há de ser (sinto no ar) tempo de trigo maduro. Vai ser tempo de ceifar. Já se levanta...

Cântico Negro - José Régio 11.04.2020

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à...

Recortes do poema: Canto de companheiro em tempo de cuidados - Thiago de Mello 09.04.2020

Contigo, companheiro que chegaste, desconhecido irmão de minha vida, reparto esta esmeralda que retive em meu peito no instante fugitivo mas infinito em que se acaba a infância, porque a esmeralda não se acaba nunca. Reparto, companheiro, porque chegas a este caminho longo e luminoso mas que também se faz áspero e duro, onde as nossas origens se abraçaram dissolvendo-se em paz as diferenças, engen...

O Homem; As viagens - Carlos Drummond de Andrade 08.04.2020

O homem, bicho da terra tão pequeno Chateia-se na terra Lugar de muita miséria e pouca diversão, Faz um foguete, uma cápsula, um módulo Toca para a lua Desce cauteloso na lua Pisa na lua Planta bandeirola na lua Experimenta a lua Coloniza a lua Civiliza a lua Humaniza a lua. Lua humanizada: tão igual à terra. O homem chateia-se na lua. Vamos para marte - ordena a suas máquinas. Elas obedecem, o ho...

Instruções para esquivar o mau tempo 06.04.2020

Em primeiro lugar, não se desespere e em caso de agitação não siga as regras que o furacão quererá lhe impor. Refugie-se em casa e feche as trancas quando todos os seus estiverem a salvo. Compartilhe o mate e a conversa com os companheiros, os beijos furtivos e as noites clandestinas com quem lhe assegure ternura. Não deixe que a estupidez se imponha. Defenda-se. Contra a estética, ética. Esteja s...

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